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ALÉM DA GRANDE MÍDIA
Desde: 10/01/2017      Publicadas: 31      Atualização: 29/03/2017

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 Cultura
  13/03/2017
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O TEMPO NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS - PARTE II A caducidade precoce e a reflexão sobre o "loop"
Por Jenner Soares: "Zeitgeist é um termo alemão que significa literalmente 'O espírito da época, era ou do tempo'. A moda intelectual ou escola de pensamento dominante que tipifica e influencia a cultura de um determinado período de tempo. Por exemplo, o zeitgeist do modernismo foi marcado pela arquitetura, arte, moda durante grande parte do século XX. O zeitgeist do século XXI, além das mudanças cada vez mais aceleradas que começaram no século anterior, é marcado pelo culto e dependência da tecnologia."
O TEMPO NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS - PARTE II A caducidade precoce e a reflexão sobre o
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) o desenvolvimento científico-tecnológico trouxe a era da microeletrônica (miniaturização das máquinas e acessórios), fato que barateou os preços e facilitou a produção e o consumo em massa de diversos produtos.
 
Um relógio, automóvel ou aparelho de rádio na época de nossos avós eram construídos para ter uma vida útil bem maior (muitos funcionam até hoje, porém, nem sempre há peças repositoras). Atualmente, as indústrias fabricam produtos menos duráveis, a fim de incentivar o consumo de novos em curtos espaços de tempo.
 
Contudo, pouco se pensa na energia gasta ou na eficiência em reciclar os resíduos dessa produção cada vez mais em massa. Sabe-se que algumas empresas de países ricos até exportam seu lixo para países mais pobres, a fim de escapar de leis ambientais.
 
"A História Secreta da Obsolência Programada" é um documentário franco-espanhol pra entender como os produtos são projetados e construídos para durarem pouco já há um bom tempo (não são só os smartphones) e como essa "regra" do sistema gera lixo para o planeta: http://www.youtube.com/watch?v=o0k7UhDpOAo&hd=1
 
E dentro dessa produção e consumo acelerados, as eras também parecem passar mais rapidamente. Norberto Bobbio, em O Tempo da Memória, afirma que os períodos culturais tinham uma distinção bem clara entre si e duravam muito mais tempo (como o classicismo e romantismo). A partir da década de 1950, há tantas tendências diferentes e passageiras que nem receberam um nome. São chamadas de "pós-modernismo", o que significa apenas que vieram após o modernismo (c.1900-1950).
 
Nicolau Sevcenko, em A Corrida para o Século XXI, ensaia sobre a questão do tempo lidado na sociedade contemporânea.
 
Segundo o autor, a humanidade vive uma sensação ou síndrome de "loop de montanha russa", ou seja, nossa noção de tempo histórico virou de ponta-cabeça. Essa época traz à humanidade a aceleração em escala multiplicativa e em reação em cadeia, quanto às mudanças (inovações tecnológicas), o surto dramático de transformações. Tudo é imprevisível, irresistível e incompreensível. Como dizia o compositor Renato Russo, o futuro não é mais como era antigamente (índios, 1986).
 
Preferimos não pensar nos prejuízos (econômicos, culturais, ambientais etc.), no entanto, devido ao ritmo acelerado dos acontecimentos, pode ser tarde demais para parar ou mesmo reconhecer o momento de parar, a fim de prevenir tais prejuízos.
 
Sevcenko nos alerta que não devemos nos conformar, sermos passivos com o mundo de mudanças super-aceleradas. Podemos resistir à elas e compreendê-las. A tecnologia não pode abolir a crítica, pois precisa dela para avançar. Dialogar com as inovações é ponderar sobre seu impacto, avaliar seus efeitos e perscrutar seus desdobramentos. Criticar é elaborar julgamentos para orientar ações. Sistemas que aboliram a crítica morreram por obsolescência tecnológica. A técnica deve ser também socialmente consequente, contudo o loop emudece a crítica tornando a técnica surda à sociedade.
 
O autor propõe um distanciamento do ritmo acelerado (para um melhor discernimento crítico dos fatos), a recuperação do tempo da sociedade ou tempo histórico (para avaliar as mudanças em curso e quem é beneficiado e prejudicado) e a sondagem do futuro (a crítica histórica ponderando com a técnica a serviço dos valores humanos para benefício da maioria).
 
Para enfrentar a "síndrome do loop" é preciso dobrar o tempo em passado, presente e futuro, já que tal síndrome abole a percepção do tempo. 
 
Ela também obscurece as referências de espaço. Eis o conceito de globalização: tudo se tornou um só espaço, devido a rede de comunicações e informações. Nesse espaço global, quem mais saiu em prejuízo foram as nações menos desenvolvidas economica e tecnologicamente.
 
Esse atual período de inovações e ritmo de tempo acelerado trouxe às nações mais desenvolvidas desequilíbrios, mas também muitos benefícios (aliás, os melhores do planeta). Porém, as demais sociedades foram levadas de roldão na celeridade tecnológica, ao custo de desestabilização das estruturas e instituições, da exploração predatória dos recursos naturais e do aprofundamento de desigualdades e injustiças.
 
Não houve tempo hábil, nem vontade política, para que a maior parte da população dos países menos ricos pudesse ser inserida no novo processo de modernização, gerando, assim, uma massa significativa de "excluídos digitais" (como os objetos industrializados, as pessoas também se tornam obsoletas para o sistema).
 
O Brasil carrega há tempos esse descaso histórico-social. Nunca houve uma política de inserção sócio-econômica, a exemplo de uma educação pública preparatória para o trabalho assalariado dos ex-escravos, após a Lei Áurea (eles e seus descendentes saíram das senzalas para as favelas).
 
Nosso país está inserido nas sociedades "em desenvolvimento" ou "emergentes". A "síndrome do loop" causa-lhe toda a excitação da correria às maravilhas do consumo proporcionadas pela tecnologia global, as quais nem todos podem comprar. Tal situação nos livra da crítica a esse estado, pensamos pouco sobre as consequências atuais e futuras. Se o controle e a administração das mudanças estão nas mãos dos países mais desenvolvidos, mais motivos possuímos para criticarmos a técnica.
 
  Autor:   Jenner Soares


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